VIDE: MARIA; MIRIAM; VIRGEM; VIRGINDADE
A FEMINILIDADE DA ALMA
Tradução de Antonio Carneiro
Analisamos o relato que o autor do Apocrifo de Joao consagrou aos anjos e às filhas dos homens. Por meio de uma releitura profundamente original desse mito judaico, bem conhecido, cujo I Enoque forneceu uma versão detalhada, o autor gnóstico consegue alterar a significação, pela inversão dos papéis dos personagens: as mulheres cuja sedução tinha levado à queda dos anjos sobre a terra, se tornaram, no texto gnóstico, aquelas que foram seduzidas e enganadas por eles. Esta interpretação inovadora permitiu ao autor de Nag Hammadi fazer dessas mulheres o símbolo das almas tornadas escravas pelos poderes do cosmos, em conformidade com a concepção negativa da criação defendida pela doutrina gnóstica.
A alma é novamente colocada em cena sob os traços de uma mulher no momento de um ritual que culmina em sua ascensão celeste. Nesse caso, igualmente, os autores gnósticos se serviram de um esquema mítico já existente que reutilizaram à vontade deles. O antigo ritual de entronização que, em alguns textos judaicos intertestamentários, se aplicava aos patriarcas, reapareceu aqui sob uma forma adaptada aos conceitos gnósticos sobre a alma, e idealizando e se interiorizando por sua vez.
À feminilidade da alma corresponde a feminilidade de um anjo. Yaoel, anjo do Nome, anjo do Tetragrama, o qual a literatura esotérica judaica prestou uma atenção cuidada, reapareceu em alguns textos de Nag Hammadi sob o nome de Youel. Se ele guarda seu papel de guia da iniciada à descoberta dos mundos celestes, o anjo do Nome adquire traços femininos que se explicam em parte por sua associação a uma entidade tipicamente gnóstica, Barbelo. Não é por outro lado excluído que a interpretação fornecida sobre esse anjo no meio gnóstico tenha podido influenciar sobre alguns textos da cabala, por um jogo de influências que fica difícil de precisar.
A pesquisa sobre Youel pôs em evidência o interesse prestado pelos autores da gnose às especulações místicas, até mesmo esotéricas, do judaísmo, mais particularmente no domínio da angelologia. A enquete sobre as entidades femininas teve também, sublinhado a continuação e a adaptação, no meio gnóstico, de motivos e tradições que se encontram nos escritos intertestamentários. Essa familiaridade com o patrimônio tradicional judaico, indo por vezes até ao empréstimo de fórmulas literárias, convida a reconsiderar as relações entre judaísmo e gnosticismo ao dobrar da era cristã.
A atenção que os autores gnósticos deram à alma enquanto heroína feminina de uma aventura em três movimentos — das origens celestes, à queda, ao retorno à dimensão divina — deu lugar a certo número de relatos brotados sob a forma de conto alegórico. Esse gênero literário se prestou bem a uma apresentação às vezes atraente e simplificada do mito de Sophia, suscetível de interessar um público não somente gnóstico. Assim, na segunda parte, Passagens, examinamos produções literárias que puderam influenciar os contos gnósticos sobre a alma: o romance de amor grego, com suas heroínas de traços por vezes simbólicos, e mais ainda o romance judaico, cujas protagonistas femininas prefiguram a alma em sua procura existencial.
A atenção dada às entidades femininas marcou igualmente um número de títulos de Tratados da Biblioteca de Nag Hammadi, o que constitui uma posição original em relação ao conjunto da literatura antiga.